Por Emerson Linhares (Jornalista).
A maioria das análises políticas que tem sido feitas até o presente momento, a respeito da questão Walter Alves-Fátima Bezerra, têm sido míopes – para dizer o mínimo. As que atribuem à governadora a impossibilidade de se candidatar ao Senado, como se dela fosse a culpa, chegam a ser levianas. Nesse cenário, não se pode menosprezar, igualmente, o viés misógino de tais comentários que, em paralelo infeliz com algumas reflexões comuns a respeito de atos de violência contra mulheres, buscam velada ou expressamente atribuir responsabilidade à vítima.
Realmente tais análises desprezam uma série de fatos e fatores, nestes quase quatro anos de uma aliança política entre PT e MDB, que não podem ser desmerecidos. Diria até que são deixados propositadamente de lado para construir a narrativa do vitimismo de Walter e de uma inabilidade da governadora e da Esquerda potiguar, que estaria perdida.
Tenho visto colegas de imprensa exercendo um esforço enorme para poupar Walter das críticas a ele direcionadas. Como todos sabem, Walter não quer ser governador do Estado, mas deputado estadual. Essa decisão foi a que possibilitou a imensa mobilização em torno de uma possível eleição indireta para mandato-tampão, já que a governadora Fátima Bezerra pretendia disputar o Senado. Não vai mais, porque corria o risco de entregar o RN nas mãos dos adversários políticos.
“Fátima não será candidata ao Senado porque não conseguiu pavimentar o caminho para fazer o sucessor no mandato-tampão na eleição indireta”, disse uma jornalista. Certo, mas pergunto eu: onde fica o “Fátima não vai concorrer porque Walter sabotou um projeto esquadrinhado e com exercícios de transição, inclusive”?
Aí lembrei de uma passagem do causo “Problema Cardíuco”, do paraibano Jessier Quirino (Berro Novo, 2009), onde temos o seguinte diálogo:
Aí nisso o doutor me chamou:
– Ei vamo acertar as conta?
Eu disse
– Vamo!
Aí o doutor disse
– Tem prano de saúde?
Eu disse
– Tem não! Eu num tinha prano de adoecer!
Realmente Fátima não tinha esse plano, pois nunca trabalhou com o cenário de uma disputa indireta na Assembleia Legislativa porque ela já tinha candidato líquido e certo, que era Walter. Em fevereiro de 2025, Walter disse que assumiria o governo e não disputaria a reeleição (aí surge a candidatura de Cadu Xavier!) e em janeiro desse ano disse que não assumiria o governo. Sequer chegou a se insinuar para construir com a governadora as devidas pontes para a eleição indireta, pois foi abraçar, ato contínuo, o projeto político de José Agripino Maia.
E outra: vexaminoso e egoísta é afirmar que Fátima nunca tratou Walter como aliado. Falácia. Foi bastante prestigiado. Se fosse assim, Walter jamais teria assumido o governo nas ausências justificadas da governadora do cargo, em fevereiro e abril de 2023, primeiro ano de governo de ambos, e maio e julho de 2024, bem como junho de 2025.
Inclusive, o vice-governador liderou comitivas em missões oficiais internacionais a Portugal e ao Oriente Médio, precisamente em março e maio do ano passado. E mais uma vez reitero: tinha o compromisso da governadora para assumir como governador, tanto que iniciaram a transição, bem como seria o candidato dela ao governo nas eleições vindouras.
Ao decidir ficar no cargo de vice-governador até o fim de seu mandato e disputar uma vaga para deputado no RN, que ele diz que juridicamente possível, Walter é que nunca considerou a governadora Fátima Bezerra como sua aliada.
No fim das contas, Walter revelou ser um Trojan, o famoso vírus “Cavalo de Tróia”, que na linguagem da informática “é um tipo de malware que se disfarça de programa legítimo para enganar o usuário”.
E disfarçou muito bem. Estava inoculado no governo desde a reeleição de Fátima Bezerra e agora que eclodiu retardou o projeto dos que verdadeiramente defendem a democracia, o zelo pela Res publica e sobretudo o povo norte-rio-grandense.













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