Por Henes Dácio Urbano Muniz.
O que falta dizer desse sertão nordestino que ainda não fora dito? Muitos homens não o esmiuçaram? Já não disse Euclides da Cunha que o homem dessa região é um forte? Baleia ainda está faminta por preás? Será que ela (Baleia)ainda tem sonhos com roedores suculentos? Luiz Gonzaga não exaltou o seu torrão natal em muitas canções? O que ainda resta dos solos da caatinga que não tenham sido declarados em verso e prosa?
No agreste, os homens eram formados no cabo da enxada ou puxando as tetas das vacas. Ali, no estio da terra estéril, nasciam homens aos borbotões circuncidados de valores altaneiros. Muitos e variados eram os costumes e até mesmo os usos os identificavam como pertencente aquele lugar.
Os passa-dissos já não embelezam mais as cercas, porque engenhocas, tramelas e porteiras foram trocadas. Arrancaram os marcos antigos que promovem culturalmente as nações. Tiraram destas terras, o matuto. Agora são bichos da cidade, mesmo morando na roça.
Os banhos de açude e de riacho perderam o sentido pra quem não nasceu puxado pela parteira. O doce da rapadura não agrada mais, há coisas mais palatáveis.
“Perdeu o encanto,
Já não desabrochou.
Não se admire do espanto
que entre nós se causou”.
Agora falta tudo, porque foi ensinado outros valores onde ancoretas, cambitos de pau e mais uma leva de coisas foram levadas nos inúmeros caçoás do progresso, da modernidade e da tecnologia.
Desmembraram o caboclo nascido no mato das suas inúmeras partes a sua totalidade se desfez na estranheza da causa que lhe é inserida implícita ou explicitamente pelo novo, usual e popular costume sociocultural. Só ferramentas moderníssimas são atraentes.
O canto da cigarra agora é mais solitário do que nunca, porque ali, nos tabuleiros e carrascos os seus ouvintes foram levados, um por um, como espólio de guerra ancestral.
Daquilo que um dia foi riqueza, agora é sinônimo de atraso e saudosismo. Caiu no obsoleto e desuso. Não por não serem dignos de outras manifestações, mas por causa do que lhe foi incutido pouco a pouco.
Não é necessário matar um homem para tirar-lhe a vida, arranca-lhe a sua cultura e ele perecerá. Em breve será um mestiço como os samaritanos, segundo a Bíblia.
Sem linguística, culinária, artes, trajes típicos, festejos, dentre outras coisas. Torna-se um novo homem, derivado daquele original.
Até o que era mais corriqueiro já não é visto.
O jegue foi trocado por motocicletas e fazem o serviço quase que poético, se não fosse banal.
No lugar da luz da lamparina, surgiram placas solares e torres eólicas trazendo energia aos confins sertanejos.
Lá naquelas brenhas antigas, rodeadas de casebres, já não correm o magote de meninos e os grandes terreiros varridos com ramos de vassourinhas agora foram tomados por juremal espinhoso.
As casas caíram, e do horizonte antigo que se escondia por trás da serra, nada mais resta, apenas memórias perdidas nas histórias contadas pelos velhos brejeiros, sentados nos bancos de madeira de angico, se é que ainda resta uns e outros.
Sim, hoje, somos um arremedo do que um dia fomos. As heranças culturais foram abolidas abruptamente num espaço de tempo muito curto. Pouco ou quase nada é o que resta. Aqui e ali um assombro. Só resquícios, esboços e solidões…
Puxados a força para fora pelos braços da prosperidade, devagarinho se tornaram pobres, miseravelmente miseráveis. Naquelas eras perfumadas pelas flores invernais havia júbilo, o vento rasteiro trazia o cheiro do mato.
Não é necessário novos tratados para entender o pertencimento de um povo, basta a conservação do que lhe foi ensinado.
Sejam apegados ao seu torrão natal antes que sejam arrancados de lá, mesmo sem saírem dali.












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