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Artigo

Sertão

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Por Henes Dácio Urbano Muniz.

Existem lugares no mundo que são belíssimos pra contemplação dos olhos mais ambiciosos por paisagens e mirantes atraentes na forma e conteúdo, mas caso alguém que olha não seja natural dali, perderá o corriqueiro dia-a-dia desses locais apaixonantes.

Os moradores desses lugarejos devem ser invejados por terem tido o privilégio de nascer num canto do planeta que salta aos olhos até do morador mais desatento.

– “Existem arco-íris para serem vistos. Suas cores vibram no céu. Assim eles são benquistos. Além, muito além do véu”.

Ali, montes e valados deslumbram entre os pináculos estendidos. Em cada precipício as aves fazem as suas moradas vertiginosamente ideais. Cada cantinho escondido do mundo guarda os seus segredos que é melhor os homens não contemplarem.

– Deixe-os lá, intactos até dos olhares quebrantosos. Mas donde tirar beleza do feio? Mãos calejadas podem escrever belas canções? Tragam os inquiridores desse século presente para alumiar essas questões.

Se existir a possibilidade de extrair beleza do feio, esse lugar é o sertão nordestino na seca mais severa.

Quem achar encantos entre os garranchos retorcidos, folhas secas e carrascos duros como diamantes será bem-aventurado. Na estiagem a morte domina o cenário cinzento, marrom escuro, e se o solo endurecido pela falta de chuva pudesse verter lágrimas, ali haveria grandes inundações.

– Tudo é feio, horrivelmente deprimente…  Mas existem extrações belíssimas dentro daquelas terras estéreis e moribundas. O calor abrasador governa o dia medonho até pra o Juazeiro copado que de longe é vislumbrado pela árvore disforme.

Muito longe se ouve o som dos rebanhos de anuns pretos e almas-de-gato que acham bons motivos pra fazerem os seus poleiros entre o que ainda resta de vida na caatinga sofredora.

Há beleza colossal aqui. Prendam-se nas algemas libertadoras do seu torrão natal. Admirem os cactos que nascem sobre o serrote banhado de sol e sol novamente. É incrivelmente belo aquele xique-xique que nasceu sobre o embrutecido seixo. Parece até que fincou raízes sobre o lajedo efervescente dos banhos diários dos raios solares. Façam do regionalismo o grande expositor de suas ideias, define o apologista mais eufemista.

Olhem para os seus vaqueiros de fala matuta. Esse é o grande governante entre poeiras, mangas sem pastos e corujas buraqueiras, declara o entusiasta. Aqui e ali, carnaubeiras se destacam com seus frutos enegrecidos e talo espinhoso.

Bem… Se A Triste Partida, de Patativa do Assaré, nasceu ensobreada da boniteza poética do cancioneiro, sem dúvidas, até certezas brotam das dúvidas cruéis. Os redemoinhos de massa de ar quente parecem açoitar os dias mais tórridos. Não tem água, só chão, caducifolias e carniças de animais mortos.

“Até aqui, tu me amas

Dentro do quente braseiro

Assim, se tu me declamas.

Já não serei derradeiro”.

Caso os filhotes dos carcarás cresçam fortes e corados, outros animais devem morrer para que tenha fartura no ninho dos carniceiros. Certo está João Cabral de Melo Neto em Morte e Vida Severina. Há lascívia na morte atocaiando a vida. Lá se vão as belas poesias enamoradas por versos da fome, morte e vida.

Só na dureza das terras rachadas podem submergir belezas tão peculiares.

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