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Brasília Carlos Ferreira, a mulher que amava os livros

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Por Fátima Bezerra, professora e governadora do RN.

Há homenagens que apenas recordam uma trajetória. Outras conseguem fazer essa trajetória continuar viva. A inauguração da Biblioteca Popular Brasília Carlos Ferreira, na Casa Socialista, pertence a essa segunda categoria. Mais do que dar nome a um espaço de leitura e formação política, ela reafirma o compromisso de manter vivo o legado de uma mulher que fez do conhecimento um instrumento de transformação social e da educação um ato permanente de esperança.

Sempre me lembro de uma brincadeira que fazia com Brasília. Inspirada no belíssimo romance O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura, eu dizia que, se fosse para escrever uma biografia dela, o título seria outro: A Mulher que Amava os Livros. Ela sorria. E a verdade é que esse título lhe cabia perfeitamente. Brasília era apaixonada pela leitura. Lia com avidez, com curiosidade permanente e, sobretudo, com a convicção de que os livros só encontram seu verdadeiro sentido quando ajudam a compreender o mundo e a transformá-lo.

Por isso, a biblioteca que agora leva seu nome não poderia ser uma homenagem mais justa.

Ao recordar sua trajetória, não escrevo apenas como governadora do Rio Grande do Norte. Escrevo como alguém que teve o privilégio de conviver de perto com uma das mulheres mais extraordinárias que eu já conheci, e porque não dizer este estado já conheceu. Pelo seu senso de humanidade, de generosidade e de justiça.

Falo da querida professora Brasília Carlos Ferreira.

Falar de Brasília para mim é sempre muito inspirador. Porque é falar, sobretudo, de afeto, de companheirismo e de uma amizade muito profunda, construída na luta, na esperança e no sonho compartilhado de construir um Brasil mais justo, humano, fraterno e solidário..

É também falar de uma mulher que fez do conhecimento um compromisso com a transformação da sociedade.

Por isso, acho que não poderia haver homenagem mais bonita.

Porque Brasília nunca acumulou conhecimento para si. Ela compartilhava. Ela ensinava. E ela aprendia também. Ela provocava. Ela formava. Ela acreditava que o conhecimento só cumpria plenamente sua função quando ajudava o povo a compreender a realidade para transformá-la.

Por isso esta biblioteca não deve guardar apenas livros. Ela deve guardar uma maneira de olhar o mundo. Porque ela traz um nome que guarda um compromisso político e humano. Portanto, ela guarda um legado.

Conheci Brasília ainda muito jovem, quando começava minha militância no movimento dos trabalhadores em educação. Enquanto nós dávamos os primeiros passos na luta sindical, participando da luta pela redemocratização do país, ela já dedicava parte da sua vida à formação política das trabalhadoras e dos trabalhadores.

Quantos seminários… Quantos debates… Quantas horas… Quantas noites ela passou compartilhando generosamente aquilo que sabia. E fazia isso sem qualquer vaidade. Porque Brasília nunca separou universidade e povo. Nunca separou ciência e compromisso social.

Ela fazia aquilo que Paulo Freire tanto nos ensinou: colocava o conhecimento a serviço da libertação.

Mais tarde tivemos, para nossa alegria, passou a integrar nossa assessoria parlamentar, trouxe toda sua inteligência, seu rigor intelectual e sua enorme capacidade de compreender os grandes desafios do Brasil.

Era o tempo da chegada do presidente Lula à Presidência da República. Era o tempo em que uma geração inteira voltava a acreditar que era possível construir um país mais justo.

Lembro da emoção de Brasília naquele primeiro de janeiro de 2003. Dos olhos marejados. Das lágrimas de alegria. Porque ela sabia o tamanho daquela conquista histórica. Sabia quantas vidas, quantas lutas e quantos sonhos tinham sido necessários para que um operário nordestino chegasse à Presidência da República.

Mas Brasília nunca confundiu esperança com acomodação. Ela sabia que democracia precisa ser construída todos os dias. E por isso abraçou com tanta dedicação outra das grandes causas de sua vida: a memória, a verdade e a justiça.

Quando foi criada a Comissão Nacional da Verdade, ela vibrou. Porque entendia que um país que esquece seus mortos, que silencia seus desaparecidos e que não enfrenta os crimes do autoritarismo deixa abertas as portas para que a violência volte a acontecer.

Hoje, quando o Brasil ainda enfrenta aqueles que tentaram destruir nossa democracia, sua trajetória se torna ainda mais atual.

Ela nos ensinou que defender a democracia não é um gesto de ocasião. É um compromisso permanente.

É por isso que preservar a memória é também defender o futuro.

Há algo profundamente simbólico nesta homenagem. Brasília dedicou sua vida inteira à memória. Pesquisou trabalhadores, movimentos sociais, resistência popular, ditadura, mulheres e democracia. Fez da pesquisa histórica um compromisso ético com o presente, ajudando a compreender que a memória não é um exercício de nostalgia, mas uma ferramenta indispensável para que uma sociedade reconheça seus erros, honre aqueles que resistiram e impeça que as tragédias do autoritarismo se repitam.

E justamente ela foi atingida por uma doença que lhe roubou as lembranças.

Esse talvez seja um dos paradoxos mais dolorosos da vida.

Mas há uma memória que nenhuma doença consegue apagar. É a memória coletiva. É a memória que vive em cada aluno que ela formou. Em cada trabalhador que ajudou a organizar. Em cada pesquisador que inspirou. Em cada companheira e companheiro que aprendeu com ela. Em cada luta que ajudou a construir.

É essa memória que esta biblioteca preserva.

Porque livros também têm essa missão. Guardar aquilo que jamais pode ser esquecido.

Num mundo em que tantos tentam espalhar o ódio, a intolerância e a mentira, abrir uma biblioteca popular é um ato profundamente revolucionário. É afirmar que o conhecimento pertence ao povo. Que cultura não é privilégio. Que educação transforma vidas. Que pensamento crítico fortalece a democracia. E que organização popular continua sendo o caminho para construirmos uma sociedade menos desigual e mais humana.

A Casa Socialista cumpre exatamente esse papel. Ela mostra que política também se faz com livros, com arte, com música, com formação, com afeto, com convivência e com solidariedade.

É assim que se constrói cidadania. É assim que se fortalece a democracia.

Por fim, permito-me dirigir algumas palavras à minha querida amiga.

Querida Brasília,

Sei que as palavras já não chegam até você como chegavam antes. Mas o amor chega. O carinho chega. A gratidão chega.

Seu nome agora identifica uma biblioteca popular. E isso significa que, daqui a muitos anos, jovens entrarão naquele espaço perguntando: “Quem foi Brasília Carlos Ferreira?”.

E então descobrirão que ela foi uma professora brilhante dentro e fora dos muros da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Uma intelectual respeitada. Uma militante incansável. Uma mulher altiva. Uma mulher que acreditou na classe trabalhadora. Uma defensora da democracia. Uma construtora de sonhos coletivos que nunca perdeu a capacidade de se indignar diante da injustiça, da opressão e do preconceito.

Descobrirão, sobretudo, que ela dedicou uma vida inteira colocando seu conhecimento a serviço do povo brasileiro.

É por isso que a Biblioteca Popular Brasília Carlos Ferreira é muito mais do que uma homenagem. Ela é a certeza de que sua voz continuará ecoando em cada livro aberto, em cada roda de conversa, em cada jovem que descobrir ali que o conhecimento é uma forma de liberdade.

Porque algumas pessoas atravessam a vida lendo livros. Outras, como Brasília, transformam a própria vida em um livro que continuará inspirando gerações.

Viva a Biblioteca Popular Brasília Carlos Ferreira.

Viva a educação pública.

Viva a cultura.

Viva a democracia.

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Texto inicialmente publicado pela Agência Saiba Mais.
https://saibamais.jor.br/

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