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Artigo

O dia em que entrevistei Bolsonaro

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Por Stenio Urbano – Jornalista.

Revirando as páginas dos meus arquivos pessoais, deparei-me com o registro de uma entrevista com, até então, um ilustre desconhecido: Jair Bolsonaro.

Ainda recordo o fatídico. Era final da noite de uma quinta-feira modorrenta de 2015, a redação estava sem pautas importantes. O editor, escalou-me para uma cobertura incomum para um repórter recém-chegado de última hora: ir à Assembleia Legislativa cobrir a visita de um deputado do baixo clero da política nacional que iria receber a MAIO honraria do Estado, a Medalha do Mérito Amazônico.

Esse fato movimentou os movimentos sociais, e a cidade.

Àquela altura, eu e metade do país nunca tínhamos ouvido falar naquele “anão” parlamentar. Como qualquer repórter precavido, fiz uma busca rápida sobre sua carreira. Nada relevante: apenas polêmicas barulhentas sobre pautas LGBTQIA+, um histórico de afastamento do Exército e ZERO projeto relevante.

Saí da redação acompanhado de Marquito, motorista do jornal “Amazonas Em Tempo”. Dali em diante, nada mais seria trivial, nem na minha jornada pessoal política, nem nos fatos que se desdobrariam na história do Brasil.

Ao chegar à Assembleia, o perfil da multidão que se aglomerava chamou-me a atenção. Jovens que clamavam por um “mito”, ostentando camisas, bandeiras e um discurso que, até então, eu nunca vira ecoar tão abertamente fora dos porões das redes sociais. Os seguidores do tal “mito” defendiam sem pudor a ditadura militar. O tom agressivo daquela turba estarreceu este repórter que, ainda sem o estofo de coberturas políticas, acabou cortando boa parte das declarações que exaltavam ditadores, pediam a morte de opositores e flertavam escancaradamente com o autoritarismo.

Ao fim da homenagem, abriu-se o espaço para perguntas da imprensa. Diante da irrelevância do personagem naquele momento, confesso que nem sequer lembro-me sobre o quê perguntei ao futuro presidente.

O que me marcou, porém, foram alguns detalhes irrelavantes, tal como a estatura do personagem, um homem de 1,89m, o sorriso largo, gestos articulados e incessantemente apontando armas com os dedos para o público insandecido do lado de fora da Assembleia.

Deixei o prédio com a nítida convicção de que havia entrevistado um abirobado do juízo, um inconsequente, um sujeito sem a menor chance e relevância no cenário nacional. Estava enganado.

Daquele ano em diante, o país mergulhou no abismo. Dilma sofreu o impeachment, o “mito” escapou de um fajuto atentado, e o homem que eu julguei ser apenas um lunático folclórico assumiu a Presidência da República, mergulhando no mesmo caos que eu vira naquela multidão de insandecidos pelas ruas e aeroportos de Manaus.

No dia seguinte a matéria fora capa do jornal.

Na época, dei pouca importância a minha noite dos “cristais”. Mal sabia que tinha registrado o embrião do período mais sombrio da nossa democracia.

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